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quinta-feira, 31 de julho de 2025

 



Espiral do consumo

Consumir é utilizar-se de alguma coisa, até o seu final, acabar por completo. 


Em sua essência, consumir é aniquilar, devorar, esgotar. Sim somos devoradores voraz de tudo a nossa volta: da tecnologia, da cidadania, da diplomacia. Somos consumidores no âmago da palavra. Vivemos uma espiral do consumo onde dilapidamos nossa terra, exaurimos nossas águas, extinguimos nosso verde, aniquilamos nossos animais e queremos sempre mais. Não percebemos, mas somos consumidores de nós mesmo, do nosso próprio mundo.

 

Quando trocamos um produto ou serviço por dinheiro, não estamos apenas comprando algo, estamos consumindo tudo o que está por trás daquele produto. Porque para se fazer algo, algo é destruído. Quando vemos um item na vitrine, não imaginamos a longa cadeia industrial deste produto. Apenas desejamos este produto. Se, ao levarmos este produto para casa, toda a transformação da matéria prima, todo o desenvolvimento, toda a fabricação, embalagem e transporte, nos fosse apresentados e tivéssemos que levar pra casa? Interessante, não?! Mas e se todo o rastro de destruição viesse junto? Toda contaminação dos rios, toda a poluição dos ares, todo o resíduo gerado? Seria um grande fardo! Como num passe de mágica, apenas ficamos com o "sapatinho de cristal", "a doce maçã". A vitrine não revela o avesso, não ilumina o caminho da destruição, não te convida à verdade. A vitrine esconde, blinda e cega os olhos de quem se deixa comprar. 

 

No fim, acumulamos o que compramos. Nos endividamos com o que compramos. E nem sempre utilizamos o que compramos. Quantas roupas não usadas, quantos sapatos não calçados, viagens perdidas em lágrimas e dissentimento.

 

E se todo mundo parasse de consumir? Como o mundo giraria? Como a economia funcionaria? Qual tipo de economia sobreviveria? Surgiria uma nova?


E se todos decidirem usar canudinho de plástico? Atualmente já encontramos vários tipos de canudinhos de inox: reto e torto, com escovinha, com estojinho... uma série de apetrechos. A mesma coisa o copo de silicone dobrável: inúmeras cores, modelos, com alcinha, sem alcinha, com tampa, sem tampa, de 400 ml, de 120 ml... Ao compartilhar um imóvel com pessoas de todos os lugares do mundo deixamos de criar demanda para novos hotéis. Quando deixamos nosso carro na garagem e usamos o compartilhamento de carro diminuímos necessidade de se ter um carro. Quando usamos bicicletas compartilhadas, deixamos de usar o carro, mesmo que compartilhado. Quando decidimos andar à pé, ter horta em casa, nos tornamos quase autossuficientes... e assim caminha a humanidade, consumindo, no real sentido da palavra.


Quase. Afinal, para um elo que se abre, outro se fecha. Quando deixamos de usar um produto, shampoo e condicionador por exemplo, e passamos a optar por algo mais alternativo como o bicabornato e vinagre, as prateleiras se inundam com estes produtos com novas roupagens. A quantidade de tipos diferentes nos supermercados é imensa: vinagre orgânico, sem conservante, sem corante, sem bisfenol A... O bicabornato, ah, este não "goumertizaram". Ainda!

Isto não é um questionamento simples. Porém não comprar, portanto não consumir, nos transforma. Quando percebemos que não precisamos de tudo aquilo que um dia fomos tão presos, nos dá a sensação de controle da nossa vida. Não comprar e não sofrer. Voltar feliz de uma visita ao shopping, de mãos abanando. Esta sensação é de empoderamento. De ser mais forte que os apelos comerciais. De não ser escrava do consumismo. Consumir apenas aquilo que realmente necessitamos para não exaurir. Consumir apenas para sobreviver.


Somos consumidos pelo consumismo. Temos que ter isto ou aquilo. Usar aquilo ou aquilo outro. Pintar as unhas, tingir os cabelos, comprar na Shopee. Nos jornais da TV fomos divididos em quem comeu Morango do Amor (febre atual) e gostou, quem comeu e não achou graça e quem nem se interessou. O Morango do Amor é uma forma de, mais do que amar o consumo, de estar dentro dele, ser parte. 


E você, consome para sobreviver ou vive a espiral do consumismo


MARA DÉBORA

Consultora de Estilo Sustentável

Criadora do Guarda-roupa Sustentável


 

 


terça-feira, 21 de agosto de 2018

Sustentabilidade está na moda




Eu já falei algumas vezes que seguir a moda está fora de moda. Mas esta palavra está sempre tão em voga, que é difícil perder este costume. É uma fixação usá-la, é praticamente uma mania. Algumas vezes vira um surto, uma epidemia, chega a ser um vício. Quem não adota uma tendência, creem alguns, fica sem estilo, não tem gosto, não tem a forma que a moda informa. No entanto é preciso entender e respeitar que moda é a maneira de se vestir de cada um, é o jeito de se apresentar, é o meio que cada um encontra para se expressar. Mas é também um modo de se amar.

Então, eu digo, com toda praxe, que a sustentabilidade está na moda. Sucesso seria se seu uso virasse um hábito. Não tenha vergonha de ser sustentável, de usar uma roupa de segunda mão ou uma roupa usada ou uma roupa com rasgo, com bolinha ou com mancha. A maioria destas peças são roupas com história. Assim é a indumentária da sustentabilidade. 

Nada de roupa certinha, novinha. O que tá na moda é usar e usar e usar as roupas até elas suportarem. E quando não der mais, upcycle nelas. Corta um pedaço, emenda outro, corta de um lado, faz mais furos, cobre as manchas com mais manchas. Enfim, dar mais uma chance à peça de se manter no seu armário.

Porém, como todo mundo adora ficar na moda, as marcas agora lançaram roupas com cara de sustentável. Roupas com manchas, furos, pregadas uma nas outras, com cara que passou por upcycling. 

Não se engane, porque ela só tem cara de reciclada. É só mais uma roupa nova, disfarçada de reutilizada, para você "estar na moda sustentável". Porque na verdade, não basta a roupa ser sustentável, tem que ter a alma sustentável. 

Não deixe que as marcas direcione seus passos para caminhos em que a sustentabilidade se quer respingou. Não se deixe levar por uma moda que não respeita seu coração, o sangue verde que corre em suas veias e faz brotar o que mais sustentável existe dentro de você.

Invista nas marcas que fazem do nosso lixo, suas matérias primas; que imprimem nas etiquetas toda sua própria inquietude pelo planeta; que embalam suas roupas com a consciência de fazer por nós um mundo melhor.

Sustentabilidade está na moda sim, porque se assim não for, nossa vida se tornará uma grande epidemia
, sem glamour algum!

Texto de Mara Débora
(nota: todas palavras em negrito são sinônimos de moda)